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Dissonância Cognitiva #10: Greta Thunberg e as Vítimas das Alterações Climáticas

Dissonância Cognitiva #10: Greta Thunberg e as Vítimas das Alterações Climáticas
By Bruno Ribeiro • Issue #10 • View online
Bem-vindo à edição semanal da Dissonância Cognitiva, uma newsletter que explora a interligação entre Psicologia Social e Cognitiva, Behavioral Economics e o mundo do Marketing e Publicidade. Na edição de hoje vamos abordar um princípio psicológico que tornou Greta Thunberg no rosto do movimento contra as alterações climáticas.

Greta Thunberg: A campanha de Relações Públicas que o Planeta Precisa
Fonte: Wikimedia
Fonte: Wikimedia
“Se apenas um homem morre de fome, isso é uma tragédia. Se milhões morrerem de fome, é apenas estatística”.
A frase acima é atribuída — ainda que sem qualquer garantia histórica — a Joseph Stalin com o intuito de demonstrar a total falta de simpatia do regime comunista pela condição humana. Mas, retirando a conotação política à mesma, é uma frase que contém em si uma importante verdade sobre a forma como encaramos o Mundo e, sobretudo, a miséria e o sofrimento de outros seres humanos: é preciso um rosto, um nome, para tornar a tragédia palpável!
Na newsletter #7, a propósito da informação negativa em torno da vacina da AstraZeneca, abordei, ainda que de passagem, o conceito de vítima identificável, que nos leva a desenvolvermos um maior sentimento de empatia, e uma maior vontade de ajudar, quando a nossa atenção e os nossos esforços são direccionados para uma vítima concreta, palpável, do que quando o foco é uma massa humana, despersonalizada, e apresentada como uma estatística.
Quando nos centramos numa única pessoa como foco da mensagem, o apelo emocional é mais forte e impele-nos à acção. Vejamos os exemplos abaixo:
Cenário A
Todas as crianças necessitam de uma alimentação saudável para puderem viver uma vida feliz. No entanto, isto não acontece para 26 milhões de crianças em África que devido à fome sofrem de problemas de crescimento. A sua ajuda é necessária para ultrapassar esta situação trágica. Faça um donativo hoje.
Cenário B
Todas as crianças necessitam de uma alimentação saudável para puderem viver uma vida feliz. No entanto, isto não acontece para a pequena Madalena, de 8 anos, que devido à fome não consegue crescer de forma saudável. A sua ajuda é necessária para ultrapassar esta situação trágica. Faça um donativo hoje.
Este exercício foi aplicado em vários estudos, com os resultados a apontarem sempre para a mesma conclusão: as pessoas estão mais disponíveis para ajudar no Cenário B em que o foco é colocado numa criança em concreto, do que num cenário onde milhões de crianças anónimas são o alvo do apoio.
Mas porque é que isto acontece? De um ponto de vista racional e objectivo, a referência a milhões de vítimas deveria representar um maior apelo à ação ou, pelo menos, uma igual vontade de ajudar.
A verdade é que, ao contrário do que as teorias puramente económicas do comportamento humano advogam, não somos seres puramente racionais. As nossas decisões e comportamentos não são tomadas tendo por base apenas e só a maximização dos benefícios, individuais ou colectivos. A componente emocional é fundamental no processo de tomada de decisão, e no caso da síndrome da vítima identificável, leva a que prestemos uma maior atenção e nos relacionemos mais diretamente com uma vítima à qual podemos atribuir um rosto e um nome, do que com milhões de vítimas que se transforma num número.
E isto leva-nos à análise do sucesso da campanha de Greta Thunberg enquanto rosto do movimento de consciencialização sobre as alterações climáticas. Com apenas 18 anos, a jovem sueca captou a atenção de milhões pessoas pelo Mundo fora para este temática de uma forma que dezenas de ONGs e iniciativas internacionais nunca foram capazes de o fazer, em décadas de tentativas.
A partir de uma greve escolar, Greta tornou-se numa verdadeira rock-star ecológica, participando em manifestações de ruas um pouco por toda a Europa, dando entrevistas nos principais canais e programas televisivos internacionais, passando pela nomeação para o Nobel da Paz, até discursar na Assembleia das Nações Unidas.
Os resultados têm sido impressionantes. Serão poucas as pessoas com acesso ao mínimo de informação que não tenham ouvido falar da adolescente sueca que quer mudar o Mundo. Poucos são os líderes mundias que não se confrontaram já com questões levantadas por este movimento. Nunca como hoje o ambiente e a sustentabilidade do nosso planeta foi motivo de discussão — mesmo que nem sempre a mais produtiva — e análise. 
Obviamente que nem todo o mérito pode ser atribuído a Greta Thunberg e à sua iniciativa. Mas é verdade que a jovem sueca se transformou na porta-voz do Planeta e que é o rosto de uma das maiores campanhas de relações públicas da era modera. E o seu sucesso reside em grande parte nesta capacidade de dar um rosto e uma identidade à problemática das alterações climáticas. Estudos demonstram que pessoas com uma maior familiariedade com Greta Thunberg e as suas posições, apresentam igualmente uma maior predisposição para participar em iniciativas colectivas que visem combater as alterações climáticas.
Aquilo que Greta Thunberg fez foi tornar identificáveis as potenciais vítimas de futuras catástrofes ecológicas e/ou sociais decorrentes dos processos de alterações climáticas. De repente, passou a haver um rosto e um nome na consciência colectiva, e não apenas figuras abstractas de milhões de pessoas num futuro algo distante. Ao emprestar o seu rosto ao movimento - concordemos ou não com os métodos ou com a causa - Greta Thunberg humanizou a problemática e tornou-a mais “real”.
Dicionário Comportamental
Efeito da Vítima Identificável: descreve a probabilidade de sentirmos maior empatia e uma necessidade de ajudar em situações em que as tragédias são sobre um indivíduo específico e identificável, em comparação com situações em que as vítimas são um grupo maior e mais vago de pessoas.
Biografia
Estímulo Cognitivo
Adam Curtis, um dos principais documentaristas sobre o comportamento humano, apresenta numa pequena peça o desenvolvimento de um processo de paranóia colectiva, que deu origem ao presente estado de conspiracionsimo. Vale a pena ver e ouvir.
How We All Became Richard Nixon by Adam Curtis
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Sinapses
How beauty filters took over social media | MIT Technology Review
The radical idea to reduce crime by policing less, not more | WIRED UK
Neuralink Co-Founder Has an Idea for a New Religion
PubADdict
A campanha que destaco esta semana vem da Argentina, e demonstra como a publicidade para ser interactiva, não tem de viver online. A marca de pequenos electrodomésticos ATMA colocou em centros comerciais painéis publicitários com activação de aroma, incentivando os argentinos a sentirem o cheiro, como forma de “teste” para o COVID-19. Caso não conseguissem sentir o aroma, era incentivados a comunicar com as autoridades de saúde. Simples, prático e útil.
Campaña exterior 'Olorcito a desayuno"
Campaña exterior 'Olorcito a desayuno"
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Bruno Ribeiro

Dissonância Cognitiva é uma newsletter que explora a interligação entre Psicologia Social e Cognitiva, Economia Comportamental e o mundo do Marketing e Publicidade.

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