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Dissonância Cognitiva #11 - A Super Liga Europeia e uma lição de Aversão à Inequidade

Dissonância Cognitiva #11 - A Super Liga Europeia e uma lição de Aversão à Inequidade
By Bruno Ribeiro • Issue #11 • View online
Bem-vindo à edição semanal da Dissonância Cognitiva, uma newsletter que explora a interligação entre Psicologia Social e Cognitiva, Behavioral Economics e o mundo do Marketing e Publicidade. Na edição de hoje abordamos o conceito de justiça e aversão à inequidade à boleia da polémica da proposta falhada de criação de uma Super Liga Europeia de futebol.

A Super Liga Europeia e uma lição de Aversão à Inequidade
No início desta semana o mundo do futebol internacional foi abalado com a notícia de que 12 dos maiores clubes de Inglaterra, Espanha e Itália, se juntaram para criar uma nova competição concorrente à Champions League. A The Superleague, nome da nova competição, reuniria 20 equipas da elite europeia, das quais 15 seriam membros fundadores e permanentes da competição, com apenas 5 lugares disponíveis para equipas convidadas para cada época.
Apoiada pela JP Morgan, esta super liga prometia prémios monetários superiores aos que a UEFA actualmente paga a estes clubes, para além de receitas televisivas mais interessantes. Para os 12 clubes signatários da liga, bem como para 3 mais que se viriam a juntar, o negócio era altamente lucrativo e permitiria criar uma vantagem competitiva muito interessante. Para o resto do futebol europeu, restariam os prémios das competições da UEFA, potencialmente inferiores em função da perda de alguns dos clubes mais poderosos, e algumas “migalhas” resultantes da venda de jogadores aos clubes da super liga.
Apesar de todo o poder e confiança dos promotores da prova, a The Superleague teve uma vida curta - pelo menos nesta encarnação - em função de um movimento de protesto transversal do mundo do futebol, e não só. A UEFA e a FIFA, que seriam as principais lesadas pela perda do monopólio de competições, lideraram as críticas a esta prova, ameaçando punições aos clubes e atletas que nela participassem. As ligas nacionais e restantes clubes mostraram-se igualmente contra a ideia, bem como jogadores, ex-jogadores, treinadores e, sobretudo, os próprios adeptos, que foram os maiores críticos da ideia.
Em menos de 2 dias, o que parecia uma alteração sísmica do panorama do futebol de elite europeu, transformou-se num movimento falhado que explodiu nas mãos dos seus criadores (não totalmente porque certamente os prémios monetários das competições europeias serão redesenhados para acomodar algumas das suas pretensões). E se esta débacle resultou de um movimento, não totalmente expontâneo, do mundo do futebol a um conceito que remove na totalidade a ideia de mérito desportivo associado ao triunfo, também não o deixa de ser porque houve uma total incapacidade de quem promoveu o projeto de perceber o comportamento humano.
O pensamento por detrás da criação da super liga europeia, é o pensamento standard da economia tradicional de maximização do proveito individual, não só dos fundadores, mas de todo o ecossistema, na medida em que haveria mais dinheiro para investir no mercado de compra de jogadores. Uma ideia que esbarra na barreira do comportamento humano que determina ser mais importante a justiça e a equidade entre membros, do que a maximização do proveito.
De facto, a ilusão de justiça, em que todos têm possibilidades, se não iguais, pelo menos reais de conseguir atingir o sucesso, é transversal a praticamente todas as culturas humanas. No caso do desporto, é não só algo esperado por todos, mas também um dos seus principais atractivos. Esta procura constante de equidade e justiça resulta no que se chama de aversão à inequidade, ou seja, a tentativa de eliminar todos os factores que possam originar situações excessivamente injustas entre participantes.
O mais interessante neste princípio é que, para o alcançar, as pessoas estão dispostas muitas vezes a incorrer em custos pessoais ou a largar mão de potenciais ganhos, para garantir justiça e equidade, ou para punir quem beneficia injustamente (na sua percepção) de vantagens indevidas.
Um exemplo prático e concreto desta tendência humano é o chamado Jogo do Ultimato (ou Ditador). Este jogo é realizado com dois participantes que têm o objectivo de dividir entre si uma determinada soma em dinheiro. A mecânica do jogo coloca no entanto os participantes em posições de poder diferentes: um dos jogadores (o Alocador) tem a função de decidir como é será feita a divisão do dinheiro entre ambos, desde que cada jogador receba uma verba superior a 0€; ao outro (o Recipiente) cabe a decisão de aceitar ou não essa divisão. Se o Recipiente aceitar a proposta, a verba é dividida entre os dois de acordo com a proposta do Alocador. No caso de não aceitar, nenhum dos jogadores recebe qualquer verba.
De acordo com a teoria tradicional de economia, qualquer proposta seria aceite uma vez que maximiza os ganhos de cada participante. Para o Alocador, o expectável seria procurar uma divisão em que ganhasse o maior valor possível. Do lado do Recipiente, qualquer verba que lhe fosse alocada, e não tendo ele controlo sobre a divisão, seria sempre vista como uma mais-valia. Isto significa que uma hipotética divisão de 10€ em 9€ para o Alocador e 1€ para o Recipiente, seria sempre um ganho para ambos, e deveria ser aceite.
A verdade é que os dados de centenas de experiências feitas neste jogo demonstram que tal não é o comportamento dos participantes. Nem a maioria das propostas feitas pelos Alocadores é tão desnivelada, nem a maioria dos Recipientes aceita propostas que considerem excessivamente injustas. De facto, perante uma proposta considerada injusta, a maioria dos Recipientes prefere não receber qualquer verba, penalizando o Alocador pela sua falta de equidade.
A verdade é que os seres humanos evoluíram em ambientes em que a cooperação era o garante da sobrevivência individual e da espécie e, como tal, esperam que todos se comportem de uma forma equitativa e justa. Sendo verdade que nem sempre é possível essa equidade, e que muitas a justiça resulta numa divisão diferenciada dos proveitos, o expectável é que haja uma garantia de que não existem barreiras que impeçam à partida alguém de conseguir os seus objectivos em proveito de outros.
Uma regras que os proponentes da The Superleague desconhecem ou ignoraram, e que resultou numa reacção extremamente negativa às suas ideias que, efectivamente, roubavam ao desporto este conceito de equidade com base no mérito desportivo.
Bibliografia
D. Kahneman, J. Knetsch & R. Thaler - Fairness and The Assumptions of Economics
Dicionário Comportamental
Aversão à Iniquidade: resistência humana a resultados injustos que ocorre quando as pessoas preferem a justiça e resistem às desigualdades
Estímulo Cognitivo
Num vídeo que já tem alguns anos mas que não deixa por isso de ter a sua actualidade, o já falecido Ken Robinson discuto o papel das escolas na estimulação da criatividade das crianças.
Do schools kill creativity? | Sir Ken Robinson
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Sinapses
Forgotten Memories of Traumatic Events Get Some Backing from Brain-Imaging Studies - Scientific American
The Smart 5G City Means Permanent Surveillance and Risk
PubADdict
Um bom anúncio não tem sempre de ser o resultado de uma produção extraordinária, ou representar um momento de genialidade. Por vezes, a simplicidade, a rapidez e o humor são a melhor receita, como prova esta provocação da Carlsberg, patrocinadora da Champions League, aos fundadores da The Superleague.
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Bruno Ribeiro

Dissonância Cognitiva é uma newsletter que explora a interligação entre Psicologia Social e Cognitiva, Economia Comportamental e o mundo do Marketing e Publicidade.

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