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Dissonância Cognitiva #12: Cruzeiros e Covid-19: Um estudo sobre a heurística da disponibilidade

Dissonância Cognitiva #12: Cruzeiros e Covid-19: Um estudo sobre a heurística da disponibilidade
By Bruno Ribeiro • Issue #12 • View online
Bem-vindo à edição semanal da Dissonância Cognitiva, uma newsletter que explora a interligação entre Psicologia Social e Cognitiva, Behavioral Economics e o mundo do Marketing e Publicidade.

Cruzeiros e Covid-19: Um estudo sobre a heurística da disponibilidade
Disclaimer: como funcionário de uma empresa que se dedica ao sector dos cruzeiros, devo deixar clara esta relação profissional antes da apresentação do artigo. Este texto reflecte apenas e só sobre a componente comportamental da tomada de decisão e não representa qualquer opinião da entidade empregadora à qual me encontro ligado.
O sector do turismo foi um dos principais afectados pela pandemia da COVID-19 com paragens quase por completo dos negócios em todo o Mundo. Dentro do sector, a indústria dos cruzeiros foi uma das mais afectadas a nível individual, pelo impacto económico resultante da paragem do negócio, mas também pelos danos reputacionais que resultaram da pandemia, nomeadamente pela cobertura mediática dada aos casos ocorridos a bordo de navios de cruzeiro.
O caso mais famoso foi o do navio Diamond Princess, o primeiro navio onde foram detectados casos a bordo, e que, durante semanas se encontrou em quarentena no Japão. Durante esse período os noticiários estavam cheios de histórias de terror sobre os hóspedes presos e membros da tripulação que não puderam deixar o navio devido às decisões das autoridades sanitárias japonesas, enquanto o número de casos infectados aumentava. Nas semanas seguintes, mais histórias de navios que percorriam os oceanos, de porto em porto, não conseguindo atracar em lugar nenhum, já que os países negavam o acesso com temores de que os que estavam a bordo de trazer o vírus para suas cidades ficassem sabendo da notícia.
Tal como na Idade Média, os navios ficavam no mar em quarentena enquanto o medo da peste consumia os que estavam em terra. Parecia que todos aqueles que tiveram o azar de estar a bordo de um navio de cruzeiro estavam condenados a ser infectados e, no pior dos casos, a morrer. O caso do já referido Diamond Princess foi preponderante na criação deste cenário dantesco. Ainda hoje, com o recente lançamento do documentário “The Last Cruise” da HBO, criado a partir de vídeos e testemunhos de passageiros a bordo do navio, continua a ser um tema em destaque.
Mas uma consulta rápida aos dados disponíveis publicamente sobre os casos de COVID-19 a bordo de navios de cruzeiros, fornece uma imagem algo dissonante com o cenário quase apocalíptico que foi traçado ao longo de semanas nos noticiários de todo o Mundo. De acordo com os dados disponíveis, registaram-se cerca de 3.200 casos de COVID-19 em navios de cruzeiro, com menos de 100 mortes confirmadas. Sendo valores que não deixam de ser relevantes, é preciso ter em consideração que a capacidade conjunta de todos os navios onde foram detectados casos se aproxima das 100 mil pessoas.
O facto é que, estatisticamente, os dados de COVID-19 registados a bordo de navios de cruzeiros não difere significativamente dos registados em outras actividades. Se a isso somarmos a resposta rápida da grande maioria das empresas do sector – infelizmente nem todas as empresas de forma adequada – e das autoridades dos vários países, na adopção de medidas de prevenção e mitigação de riscos, incluindo a total paragem de actividade do sector, qual o motivo para a indústria dos cruzeiros foi das mais atacadas durante a fase inicial da pandemia?
A resposta está precisamente no caso do Diamond Princess, e a saliência mediática que lhe foi dada (justificadamente). Quando as primeiras histórias sobre casos de infecção no Diamond Princess foram transmitidas, o elevado número de casos, sobretudo para uma fase inicial da pandemia, destacou a indústria dos cruzeiros dos restantes sectores. Apesar de ser apenas um navio no meio de milhares, o Diamond Princess tornou-se a imagem da indústria, de uma forma que não aconteceu com outros sectores.
Mas por que essa imagem perdura, mesmo sabendo que as estatísticas não mostram mais riscos nos navios de cruzeiro? Pela mesma razão que as pessoas tendem a ter mais medo de morrer num acidente de avião do que em num acidente automóvel, ou têm mais medo de serem vítimas de ataque de tubarão do que de serem mortos por uma vaca, embora em ambos os casos a probabilidade do segundo cenário acontecer ser estatisticamente superior.
As pessoas tendem a julgar a probabilidade de um determinado evento acontecer pela facilidade com que se lembram de uma situação semelhante ter ocorrido. Acidentes de avião, ataques de tubarão e vírus a bordo de um navio de cruzeiro são incidentes mais impactantes e memoráveis. Como tal, tornam-se mais salientes nas nossas memórias e são mais facilmente recordados no futuro.
Isso é chamado de heurística de disponibilidade: quanto mais facilmente um evento vem à mente, mais provável tendemos a acreditar que esse evento ou cenário venha a acontecer novamente. Quanto mais saliente for o evento, por ser continuamente relatado nas notícias, porque há uma conexão pessoal ou emocional com ele, ou por ser um evento recente, mais rapidamente vem à mente e mais provável e mais frequente pensamos que é para ocorrer.
A indústria de cruzeiros está familiarizada com o impacto da heurística de disponibilidade na imagem do sector em relação outros vírus, mais especificamente o norovírus, que é também referido como sendo o “vírus dos navios de cruzeiros”. No entanto, de acordo com dados do CDC dos EUA, a probabilidade de alguém ser afectado por este vírus gastrointestinal é muito menor a bordo de um navio de cruzeiros do que, por exemplo, num restaurante. De facto, a probabilidade de, no decurso de um ano, um americano contrair algum tipo de norovírus num restaurante é de 22%, um valor várias ordens de magnitude superior ao risco de contrair a bordo de um navio de cruzeiros que é estimado em 0.18%.
O impacto desta heurística nas decisões do dia-a-dia é potencialmente elevado, na medida em que nos deixamos influenciar pelo relevo e saliência que determinados acontecimentos têm por serem improváveis. Essa sua improbabilidade torna esses eventos mediaticamente mais interessantes, o que os torna mais presentes na nossa mente e, consequentemente, leva-nos a tomá-los como sendo mais prováveis num círculo vicioso que pode resultar em decisões de menor qualidade.
A melhor forma de contornar o impacto desta heurística é a de conseguirmos analisar os dados de forma isolada, procurando retirar o impacto emocional da saliência no momento da decisão. Um mecanismo mais fácil de identificar do que implementar.
Bibliografia
Dicionário Comportamental
Heurística da Disponibilidade: tendência para usar preferencialmente informação que nos vem mais rapidamente à mente para tomar decisões sobre acções futuras.
Estímulo Cognitivo
A sugestão desta semana é um pequeno debate entre duas das pessoas mais brilhantes da actualidade, o historiador Yuval Noah Harari e o psicólogo e Prémio Nobel da Economia Daniel Kahneman, sobre as tendências globais que definem o futuro da humanidade.
Daniel Kahneman and Yuval Noah Harari: 'Global Trends Shaping Humankind'
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Sinapses
7 views on how technology will shape geopolitics | World Economic Forum
Coping Strategies of Ocean Castaways Hold Lessons for the COVID Pandemic - Scientific American
This is your brain on Zoom – TechCrunch
PubADdict
O destaque desta semana vai para esta campanha da Greenpeace contra o impacto do uso de garrafas plásticas no ambiente, usando um trocadilho simples e interessante de posicionar as marcas de água engarrafada como um dos perigos aos locais naturais que lhes deram o nome.
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Bruno Ribeiro

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