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Dissonância Cognitiva #13: Privação Relativa - Quando Nem Sempre Mais Resulta em Melhor

Dissonância Cognitiva #13: Privação Relativa - Quando Nem Sempre Mais Resulta em Melhor
By Bruno Ribeiro • Issue #13 • View online
Bem-vindo à edição semanal da Dissonância Cognitiva, uma newsletter que explora a interligação entre Psicologia Social e Cognitiva, Behavioral Economics e o mundo do Marketing e Publicidade.

Privação Relativa: Quando Nem Sempre Mais Resulta em Melhor
O dinheiro não traz felicidade.
Um dito popular que tem como propósito alertar para o facto de que há algo mais na vida do que a procura constante de maior riqueza financeira. Por norma, a resposta a esta frase é algo do género: não traz felicidade, mas ajuda.
Esta segunda componente está mais perto da realidade, uma vez que estudos comprovam que as pessoas tendem-se a sentir mais felizes e mais satisfeitas com um aumento da sua capacidade financeira. No entanto, esse aumento da felicidade com o crescimento económico não representa uma correlação totalmente linear. De facto, a partir de um certo nível de conforto financeiro, a satisfação pessoal tende a nivelar, ou mesmo a diminuir.
Contrariamente ao que muitos “especialistas” em auto-ajuda concluem a partir destes dados, isto não significa que as pessoas mais ricas são menos felizes. Significa que, do ponto de vista subjectivo, a partir de um determinado padrão de riqueza o aumento da capacidade financeira deixa de produzir um aumento no nível de bem-estar com a vida reportado. Um dos motivos pelos quais isto decorre é o facto dos pontos de referência comparativa se alterarem, e o sentimento de privação relativa aumentar.
E o que é afinal a privação relativa? É um sentimento de descontentamento que surge da percepção de que estamos a ser privados de algo a que teríamos direito, sobretudo algo que percebemos que outros indivíduos ou grupos com os quais nos comparámos, possuem. Esse ‘algo’ pode significar o salário ao fim do mês, a posse de bens materiais, o reconhecimento das nossas capacidades, etc. Este sentimento de privação é denominado de ‘relativo’ porque surge precisamente por comparação com a situação de indivíduos ou grupos de referência.
Existem dois tipos de privação relativa: a privação relativa ‘egoísta’ e a privação relativa ‘fraterna’. O primeiro caso é denominado de ‘egoísta’ porque se refere ao sentimento de privação que uma pessoa sente quando compara a sua situação com a de outros membros do seu grupo de pertença.
É isto que acontece no caso dos jogadores de futebol que pedem um aumento por verificarem que certos colegas de equipa recebem um salário superior ao seu.
A privação relativa ‘fraterna’ ocorre quando o termo de comparação é feito entre grupos, isto é, quando comparámos a situação do nosso grupo de pertença com a de outros grupos sociais. É este tipo de privação que está e acção noss casos de protestos pela igualdade entre grupos, como seja o fim de políticas de descriminação racial, de discriminação entre géneros, ou a favor da liberalização do casamento.
É possível ainda que o sentimento de privação relativa ocorra em termos temporais, ou seja, quando um indivíduo ou grupo compara a sua situação actual com a do seu passado. Este fenómeno ajuda a explicar o porquê de muitas revoltas civis ou militares ocorrerem logo após um período em que um grupo estava progressivamente a conseguir um aumento na sua qualidade de vida.
O movimento dos direitos civis norte-americano nos anos 60 é um bom exemplo deste tipo de situação. O movimento anti-segregação que tinha vindo a evoluir desde o início do séc. XX, levando a uma melhoria paulatina da qualidade de vida da população negra, ainda que muito inferior ao que era a norma para a população branca. No entanto, por essa altura houve um ligeiro abrandamento nos progressos que iam sendo alcançados o que aumentou o sentimento de privação existente. Aquilo que vinha a ser um ganho progressive dos direitos civis, encontrou uma barreira inesperada, e gerou um movimento de reacção no sentido de garantir que as inequidades existentes eram definitivamente ultrapassadas.
As alturas de abrandamento económico, sobretudo após um período de forte crescimento, são propícias a originar um sentimento de privação relativa entre a população de um país, pelo facto das suas expectativas de crescimento futuro não estarem a ser cumpridas. Uma lição que qualquer político com ambições governamentais deveria aprender.
É comum assistirmos a comparações feitas por políticos, especialistas ou opinadores que apenas têm em conta apenas dados absolutos e tiram por isso conclusões erradas. O facto do salário médio em Portugal ser superior ao valor praticado nos anos 80 não significa que os portugueses não se sintam privados. Pode ser que as expectativas de aumento fossem superiores ao ocorrido, ou que a inflação resulte em que o aumento salarial signifique menor poder de compra, ou que o crescimento da qualidade de vida seja superior ao verificado em outros países.
A privação relativa é algo que todas as instituições, sejam elas governamentais ou privadas devem estar atentas no sentido de evitar situações de crise, que por vezes atingem proporções impensáveis e atingem pontos de não retorno. O foco apenas em “ganhos” absolutos, leva a que haja uma certa “cegueira” institucional relativamente a factores mais relativos e subjectivos que podem ser foco de instabilidade.
Estímulo Cognitivo
A sugestão desta semana é uma TED Talk de Adam Grant, psicólogo organizacional, sobre a importância de reflectir e repensar as nossas decisões e análises.
Adam Grant: What frogs in hot water can teach us about thinking again | TED Talk
Sinapses
C.I.A. Data Show 14‐Year Project On Controlling Human Behavior - The New York Times
F-L-I-C-C: The most common disinformation tricks of science deniers | klimafakten.de
MDMA Reaches Next Step Toward Approval for Treatment - The New York Times
PubADdict
A campanha em destaque esta semana é da McDonalds na Colômbia, para promover os seus serviços de delivery, usando de forma simples e eficiente um dos ícones da marca. Boa publicidade, não tem de ser complicada.
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Bruno Ribeiro

Dissonância Cognitiva é uma newsletter que explora a interligação entre Psicologia Social e Cognitiva, Economia Comportamental e o mundo do Marketing e Publicidade.

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