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Dissonância Cognitiva #17: Viés de Confirmação e Covid-19: um caso de falha jornalística e cognitiva

Dissonância Cognitiva #17: Viés de Confirmação e Covid-19: um caso de falha jornalística e cognitiva
By Bruno Ribeiro • Issue #17 • View online
Bem-vindo à edição semanal da Dissonância Cognitiva, uma newsletter que explora a interligação entre Psicologia Social e Cognitiva, Behavioral Economics e o mundo do Marketing e Publicidade. Se gostarem do que aqui leem, partilhem e ajudem outros a descobrir um pouco mais sobre esta temática.

Viés de Confirmação e Covid-19: um caso de falha jornalística e cognitiva
Foto de Austin Distel
Foto de Austin Distel
O debate sobre a origem do vírus responsável pela Covid-19 mantém-se aceso, com alguns desenvolvimentos a acontecerem nos últimos tempos, nomeadamente as indicações de Joe Biden para que nenhuma hipótese fosse colocada de parte, nomeadamente a possibilidade de uma fuga no laboratório de investigação de Wuhan ser o ponto de origem da pandemia que há mais de um ano vai criando o caos por todo o Mundo.
Esta hipótese foi uma das primeiras a ser avançada, quer por políticos quer por especialistas em virologia, mas foi também uma das primeiras a ser afastada e classificada como irresponsável e perigosa, pelas ramificações políticas a ela inerente. Nesta altura, volta a ganhar alguma tracção essa possibilidade, embora continue a não haver provas concretas da pandemia ser resultado de uma falha de segurança no laboratório de Wuhan, do mesmo modo que não há indícios claros que tenha tido origem na vida selvagem da região.
Para o efeito desta newsletter, essa não é uma questão que importa analisar, visto não ser de todo um tema que domine. O mais interessante é perceber como a teoria da fuga laboratorial foi sendo colocada de parte e atacada por parte de alguns meios de comunicação, não por haver certezas de que tal não teria ocorrido, mas especificamente porque os jornalistas que noticiaram o facto discordarem das pessoas que a propuseram por motivos políticos.
Uma análise detalhada à timeline da cobertura noticiosa desta hipótese por parte dos meios de comunicação social, sobretudo nos Estados Unidos, foi feita por Matthew Yglesias na sua newsletter (link nas sugestões desta semana abaixo). Na análise de Yglesias fica demonstrado que vários meios de comunicação de referência, optaram por descartar e polemizar a hipótese assim que esta ganhou tracção junto de alguns membros do partido Republicano, mesmo numa altura em que Donald Trump elogiava publicamente os esforços chineses.
A partir daí, a bola de neve de erros jornalísticos foi crescendo, com vários meios a criarem notícias baseadas em declarações parciais, dando a teoria como desmentida quando nunca tal aconteceu, e acabando por a enquadrar junto de outras teorias da conspiração assumidas por apoiantes de Trump, e como tal algo que não merecia atenção. Como consequência, vários cientistas e especialistas no tema foram atacados e classificados como racistas pelo simples facto de indicarem que a hipótese de falha de segurança no laboratório de Wuhan continuar a merecer ser explorada.
Durante quase um ano um facto relevante e importante para a análise da origem da pandemia, foi ignorada e desclassificada por ter sido originalmente avançada por pessoas com as quais alguns jornalistas discordavam. A pergunta que realmente nos importa responder é porque motivo é que numa situação de crise, vários jornalistas conceituados optaram por descartar uma hipótese - para o caso pouco importa se algum dia virá a ser comprovada como verdadeira ou falsa - sem que houvesse dados factuais para o fazer?
Havendo, como em tudo, vários motivos que se conjugam, um dos principais culpados por esta situação é o chamado viés de confirmação, a tendência que temos para nos focarmos e darmos mais importância à informação que melhor se enquadra, ou mais apoia, as nossas crenças já existentes. No caso concreto da forma como a imprensa norte-americana lidou com a possibilidade da fuga laboratorial, vários jornalistas preferiram dar mais importância à informação que os ajudava a desvalorizar, e até ridicularizar, a possibilidade, porque era a melhor forma de enquadrar a ideia na noção pré-concebida de que os proponentes da mesma, nomeada o senador republicano Tom Cotton, tinha uma agenda racista anti-China.
A partir dessa primeira ideia, toda a análise passou a ser alimentada para suportar este princípio. Todas as indicações científicas a favor da mesma foram desvalorizadas e dadas como negadas pela ciência, e todos os proponentes de uma investigação mais cuidada e aprofundada classificados de racistas e teóricos da conspiração. Incluindo especialistas conceituados em epidemiologia e medicina, alguns dos quais vencedores do Prémio Nobel. As ideias e preconceitos políticos tornaram-se mais importantes do que a investigação jornalística e científica.
Este é um caso de viés de confirmação com impacto global, que exemplifica a forma como, mesmo profissionais treinados para ignorarem as suas ideias e princípios para se focarem nos factos concretos, podem ser vítimas deste enviesamento cognitivo. No dia-a-dia somos “vítimas” deste modo de pensar de forma constante e até voluntária. O conceito de “bolha informativa” é um bom exemplo de como o viés de confirmação actua: procuramos as notícias ou as informações que “concordam” connosco e com a nossa forma de pensar, evitando dar palco a ideias contrárias às nossas, de forma a evitar processos de dissonância.
Não há melhor exemplo do que as nossas escolhas nas plataformas das redes sociais. A grande maioria dos utilizadores procura associar-se a pessoas que pensem de igual modo, que defendem os mesmos partidos, os mesmos clubes ou os mesmos valores. Isto permite-nos reforçar as nossas ideias num mecanismo de auto-confirmação contínuo. Não chegando ao extremo do controlo de informação que vemos em cultos ou em regimes ditatoriais, o princípio base que guia a forma da maioria de nós estar online é similar a estas situações.
Apesar do viés de confirmação ter estes efeitos negativos, fechando-nos a outras ideias e princípios, não significa que seja por si só algo completamente nefasto. Do ponto de vista evolutivo, este é um enviesamente cognitivo que fez todo o sentido no processo de desenvolvimento da espécie humana, pois é um processo que visa a recolha e classificação rápida e eficiente de informação. Num cenário de evolução humana à centenas de milhares de anos, este processo era essencial a evitar potenciais novos riscos vindos de predadores.
Hoje em dia, este é um processo que perdeu grande parte da sua importância na sobrevivência individual e da espécie, mas continua a manifestar-se de formas que nos podem levar a decisões menos adequadas. Não é fácil combater este enviesamento porque o mesmo ocorre a nível subconsciente, não sendo muitas vezes detectado até que seja tarde de mais, e os seus efeitos já sejam difíceis de anular.
A melhor estratégia para evitar estes efeitos, sobretudo quando deparados com uma situação que nos apresenta dois cenários concorrentes, é a de procurar obter o máximo informação de ambos os lados, e preferencialmente de uma fonte o mais neutra possível. Uma tarefa não muito fácil de conseguir. No dia-a-dia, a melhor sugestão que posso dar é garantir que recebemos informação de vários meios, possivelmente até contraditórios entre si, de forma a conseguirmos ter uma perspectiva mais alargada do tema.
Bibliografia
Dicionário Comportamental
Viés de Confirmação - tendência que temos para procurar e dar mais valor a informação que está de acordo e suporta as nossas ideias prévias.
Estímulo Cognitivo
O estímulo desta semana é este episódio do podcast Hidden Brain com o psícologo organizacional Adam Grant, onde se discute como nos enganamos a nós mesmos no nosso dia-a-dia.
The Easiest Person to Fool | Hidden Brain Media
Sinapses
The media's lab leak fiasco - Slow Boring
The English Professor Who Foresaw Modern Neuroscience - Issue 100: Outsiders - Nautilus
How to poison the data that Big Tech uses to surveil you | MIT Technology Review
PubADdict
Forma interessante da Mastercard de alertar para o estado precário de conservação de algumas espécies de vida selvagem, associando ao conceito de prazo de validade de um cartão de crédito. A ideia é simples e facilmente compreensível.
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Bruno Ribeiro

Dissonância Cognitiva é uma newsletter que explora a interligação entre Psicologia Social e Cognitiva, Economia Comportamental e o mundo do Marketing e Publicidade.

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