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Dissonância Cognitiva #7: Vacina da Astrazeneca e o Poder da Informação Negativa

Dissonância Cognitiva #7: Vacina da Astrazeneca e o Poder da Informação Negativa
By Bruno Ribeiro • Issue #7 • View online
Bem-vindo à edição semanal da Dissonância Cognitiva, uma newsletter que explora a interligação entre Psicologia Social e Cognitiva, Behavioral Economics e o mundo do Marketing e Publicidade. Para esta semana, o tema é o debate sobre a suspensão, ou pausa se preferirem, da vacina da Astrazeneca, mais especificamente perceber como é que a discussão se focou apenas nos eventuais efeitos negativos da vacina.

Vacina da Astrazeneca e o Poder da Informação Negativa
Foto de: Daniel Schludi
Foto de: Daniel Schludi
Na passada semana o processo de vacinação europeu contra a COVID-19 sofreu (mais um) revés, com a decisão de vários países de suspenderem temporariamente a administração da vacina desenvolvida pela Astrazeneca e Universidade de Oxford. A suspensão deveu-se à suspeita que a vacina poderia aumentar o risco da formulação de coágulos sanguíneos e colocar em risco a vida dos tomadores.
Uma justificação que não convenceu de todo a comunidade científica, quer porque não havia provas concretas das situações serem causadas pelas vacina, quer porque o número de casos reportados (37 em 17 milhões) representa um risco muito inferior ao risco causado pela doença, inclusive especificamente na formação de coágulos sanguíneos.
Questões de análise científica e política à parte - e este é um tema que é demasiado importante para ser limitado a uma análise unidireccional - o que interessa analisar do ponto de vista desta newsletter, e do processamento de informação, Sobretudo o ignorar dos dados - baixa prevalência do risco - e desvalorizar dos benefícios, e o enfâse dado aos casos negativos.
Apesar da discussão se centrar na vacina da Astrazeneca, a verdade é que se trata de uma discussão que contamina toda a conversa sobre o processo de vacinação, levando a um aumento do número de pessoas hesitantes em ser vacinadas.
Porquê que isto acontece? Vejamos três possíveis explicações que, em conjunto, nos ajudam a melhor perceber este fenómeno.
1) Viés de negatividade aumenta a importância de factos negativos
Um dos motivos porque tal acontece, porque tendemos a dar mais enfâse aos eventos negativos do que aos de índole positiva. Ou seja, eventos que possam ter impactos negativos no nosso dia-a-dia e bem-estar tornam-se mais salientes do ponto de vista cognitivo e têm mais impacto sobre a nossa tomada de decisão. Os seres humanos são naturalmente avessos ao risco, e é fácil de perceber o porquê num panorama evolutivo em que, durante milénios, o Homo Sapiens não só não era a espécie dominante, mas era efectivamente uma espécie frágil perante o meio-ambiente que o rodeava.
Neste contexto, é fácil de percebermos o porquê da evolução humana ter “privilegiado” o processamento e recordação de eventos negativos, visto serem ferramentas essenciais à sobrevivência do indivíduo e da espécie. Num context de pandemia, em que o risco é mais presente e mais disperso, o maior enfâse a eventos negativos é ainda mais forte.
2) O excesso de optimismo desvaloriza estatísticas
Como já vimos numa edição anterior, as pessoas são naturalmente optimistas quanto ao seu futuro. Isto pode parecer um paradoxo face ao escrito acima, mas na verdade são dois processos complementares. Estamos condicionados naturalmente para prestar a atenção a efeitos negativos, mas, por outro lado, desenvolvemos um mecanismo de adaptação cognitiva que nos permite focar nos aspectos positivos. Sem este enviesamento positivio, o mais provável era sermos todos cronicamente depressivos.
Este excesso de optimismo leva a que dados factuais sejam muitas vezes ignorados. Embora o mais normal seja ignorarmos dados negativos, a tendência de desvalorização dos dados - a que não será alheia alguma iliteracia estatística - torna-os menos eficazes na comunicação de factos positivos. E tendencialmente, acabam por ser mais fracos do que histórias específicas que envolvam pessoas reais. O que nos leva à terceira explicação.
3) Personalização dos casos negativos
Se as estatísticas acabam, muitas vezes, por diluir o impacto da informação na tomada de decisão, os relatos personalizados de histórias, sobretudo de índole negativa, têm um impacto emocional mais forte e acabam por influenciar a tomada de decisão.
Este fenómeno, designado de efeito da vítima identificável, leva a que sintamos maior empatia e maior relação por casos em que a vítima de uma eventual tragédia ou infortúnio, está devidamente identificada e não apenas focada em números e estatísticas.
No caso concreto da vacina da Astrazeneca, o facto de ouvirmos as histórias da enfermeira que faleceu uma semana depois de ser vacinada, ou o caso de um idoso que teve um embolismo após a primeira toma da vacina, torna o aspecto negativo da vacina mais saliente e mais pessoal, dando-lhe maior impacto no análise dos factos e na tomada da decisão.
Quando conjugamos estes três factores, com toda a ambiguidade e insegurança no panorama da pandemia e com o processo de vacinação, não é difícil de compreender o impacto que esta situação teve sobre a discussão pública.
Como é que podíamos diminuir o impacto destes três factores na análise do tema?
Desde logo, teria sido fundamental, desde o início chamar à conversa os especialistas que pudessem explicar e educar o público em geral. Da mesma forma que se foca a conversa dos poucos casos negativos na personalização das vítimas, seria importante fazer o mesmo para os casos de sucesso, demonstrando em que medida é que a vacinação tem permitido proteger pessoas e levar a uma retoma, ainda que parcial, da actividade.
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Bruno Ribeiro

Dissonância Cognitiva é uma newsletter que explora a interligação entre Psicologia Social e Cognitiva, Economia Comportamental e o mundo do Marketing e Publicidade.

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